Chovia lá fora como há muito não me lembro. O frio entrava pela pequena janela que propositadamente deixara aberta apesar da chuva. O Inverno tinha chegado mais cedo. Ao longe, ouvia-se o bater das três horas da tarde. No aconchego dos lençóis permaneciamos imóveis, como quaisquer amantes ressacados duma longa noite de amor e sexo. No quarto, sentia-se um ar pesado provocado pelo fumo dos muitos cigarros que fumámos e pela transpiração dos corpos. Livros de encadernações diversas, encontravam-se espalhados por todo o chão, assim como restos de piza que não tivemos tempo de comer. Ela fazia de propósito, só para me irritar. Eu já nem ligava, queria-a ali comigo, fosse como fosse. Era a primeira vez que passávamos a noite em minha casa depois da decisão dolorosa dela se mudar dali.
Eu estava em paz. Ela, encontrava-se com a cabeça caída sobre o braço, as pernas entrelaçadas nas minhas, como se a um só corpo pertencessem. É tão bom estar assim com alguém! Sentir que não existem segredos ou medos. Saber que quem está ali é só nosso e que está ali porque gosta de nós. Pertence-nos.
Ela mexeu-se. Lenta e demoradamente deslocou o corpo para cima do meu. As pernas separaram-se das minhas. Os olhos dela entreabrem-se. Beija-me. Primeiro no pescoço, depois as orelhas. A carne dos seios esmaga-se contra as minhas costas. Viro-me. Abraço-me a ela. De repente nada acontece! Silencio. Sinto o bater do coração dela a bater no meu. Ouço barulhos estranhos, o estômago dela ronca.
- Estou cheia de fome! Disse ela.
-Chiiiiiiiiu! Não faças barulho. Deixa-me aproveitar este momento aqui contigo. Parece um sonho ter-te aqui deitada ao meu lado. Quem me dera poder ficar assim abraçado contigo para sempre... Disse-lhe.
- Que horror!... Sempre? Sempre é demasiado tempo!... Respondeu-me com um ar demasiado desprendido para meu gosto.
- Estou exausta! E farta de beijos…. Esta noite pareciamos coelhos na Primavera!
- Mas estamos em Novembro “Bébé!” Respondi-lhe sorrindo.
-Ok!. Que importância é que tem o mês? o que importa é a ideia…o que fizemos. E não me chames “Bébé”, sabes que não gosto... Irritas-me quando me tratas assim, fazes-me sentir uma “queque” estúpida e mimada!
- Desculpa! Mas diz lá, esta noite foi tão bom não foi?
- Já tive melhor...!
- O quê? interroguei eu, não estava mesmo nada à espera duma resposta daquelas. Cabra! É impressionante a lata dela... Como é que tinha coragem de me dizer na cara uma coisa destas, depois do que se passou naquele quarto. Eu estava cheio de dores nas pernas e com os joelhos em sangue por causa da alcatifa. Tinhamos posto em acção praticamente todas as posições do kama-Sutra, e no fim... A Cabra vem-me dizer que já teve melhor!
- Só podes estar a brincar... disse-lhe.
- Não te impressiones, afinal não aconteceu nada assim de tão extraordinário… não percebo porque estás assim! Fizemos sexo, sim não foi mau…mas eu nunca te disse que era virgem até te conhecer pois não? - Respondeu-me ela com um ar de esfinge egípcia. Quando ela queria sabia mesmo ser implacável como ninguém... E o pior é que o queria muitas vezes! Cabra!
- Então e os teus gritos os teus “ais” e “uis”, não queriam dizer nada?
- Tudo a fingir… Palermão!
Engoli em seco! - Não vês que me estou a meter contigo? Não te queria zangar - Respondeu ela a rir. - Já amuou foi? Não vês que estava só a brincar, palerminha! - Disse-me ela com ternura. Derreti mas não desmanchei.
Mas como é possível ? Como é que alguém pode ser assim tão insensível? Como podes dizer tais coisas? - Com algum esforço tentei imitá-la no seu pior, tentei ser cruel como ela é tantas vezes para mim. Respirei fundo e respondi-lhe:
- Zangar... tu? não sejas ridícula. Por quem te tomas… a 7º maravilho do sexo?
- Sabes bem que gosto de ti! Disse-me ela. Surpresa das surpresas! Naquele momento não estava mesmo à espera daquilo. Apesar de eu ter gostado e muito do que ela me acabara de dizer, continuei! Gostar era pouco, eu queria mais, merecia mais!
- É sei! eu também gosto muito de Pipocas, de bacalhau à Brás e de champanhe! Respondi-lhe. A grandissima cabra! Custava-lhe muito ter-me dito que me amava, como tantas vezes já lhe disse? Mas não! disse somente que gostava de mim. Assim sem mais nem menos...gostava...!
Cabra... Cabra! Cabra! Cabra! Gostar, foi o termo que utilizou! Nem sequer disse que gostava muito. Limitou-se a dizer que gostava... Gostar?... gostar! Gostar gosta-se de passear à beira mar, de sair com os amigos, de passear o cão, comprar roupa nova... de fazer sexo! de fazer sexo? Sexo? a única coisa que a prendia a mim é o gostar de... Sexo! Não, não pode ser! Ela gosta de mim!??
Pediu-me desculpa. - Desculpa! Desculpas?
- De imediato não consegui responder-lhe, isto é, naquele momento não fui capaz de pensar numa resposta que a magoasse tanto a ela como ela me magoou a mim. Em verdade, também já me era indiferente...Bem indiferente indiferente não seria, mas quase!
Aquela noite já era minha, ninguém ma podia tirar! nem ela... muito menos ela! Tanto me fazia que fosse Novembro, Janeiro, Maio ou Agosto, Inverno, Primavera ou Verão, que chovesse ou fizesse sol. Numa cama não há meses, nem estações do ano. Há prazer! e isso eu tinha tido... E muito! quer ela quisesse quer não. Quer ela tivesse gostado, quer não.
Eu gostei. Ponto!
(excerto de "O Meu Amor é Uma Cabra" de M.C-1996)