- Se me quiseres encontrar sabes onde me procurar.
Levei a minha atitude até ao fim. Respondi-lhe que o meu número de telefone também continuava o mesmo, até lho relembrei, soletrando dígito a dígito. Conforme ia pronunciando os algarismos que compunham o meu número de telefone, na minha cabeça ia-se formando a convicção de que a estava a perder. E tudo por causa do narigudo! A minha voz, número após número, foi-se sumindo. Foi de tal forma que os dois últimos algarismos já só foram murmurados -6, 8...6 … 6…6…6…6 repeti.
Ela saiu. Aguardei sem nada fazer seguindo-a com o olhar. Convenci-me que ela não tinha coragem para me abandonar ali, daquela maneira. Ao passar pela porta parou. Eu libertei o ar que tinha aprisionado no meu peito. Voltei a respirar. Ela estava ali parada diante da porta de costas para mim. Ela tinha reconsiderado. Que alívio! Não consegui disfarçar uma alegria interior que se manifestava nos meus olhos que não mentem. Eu não a tinha perdido. Ela amava-me! Amava-me! Sempre soubera que sim. Lentamente virou o rosto, o lindo rosto que tinha. De cabeça baixa olhou em direcção da mesa do canto, onde eu permanecia e onde sempre havíamos tomado, ela, um café, eu, um chá preto. Olhou-me duma forma que eu não lhe conhecia. Vejo-lhe o verde dos olhos. Os lábios dizem qualquer coisa que não percebo e num apressado e único passo de gigante, saiu.
Só e na mesa do café do costume, verti a primeira lágrima das muitas que viria a chorar mais tarde. Na recordação dos olhos dela li agora, adeus!
Não consegui sair dali. Eu queria ir atrás dela mas não consegui. Sentia-me como se tivesse mil quilos, não me conseguia levantar da cadeira. Ela tinha de voltar! O nosso amor... o meu amor, tinha de ser superior a uma birrinha estúpida de quem está simplesmente loucamente apaixonado. Tinha de ser! Eu sabia que a qualquer momento ela ia entrar por aquela porta e pedir-me desculpa. Eu sabia! Ela amava-me! Eu amava-a! Não nos podíamos separar assim, a nossa história não podia acabar mal. Todas as histórias de amor acabam bem. As princesas boas casam com os príncipes encantados, vão viver para magníficos castelos de duas torres, onde têm muitos filhos e vivem felizes para sempre. Eu naquele momento, não desejava casamento nem filhos nem castelos com muitos criados, só a queria a ela. Enquanto esperava pelo seu regresso montada num cavalo branco, peguei na caneta, num guardanapo de papel fino e escrevi o que não tive tempo, nem coragem de lhe dizer:
As coisas que eu tenho!
Tenho tantas coisas, mas o que mais queria não tenho!
Tenho uma camisola vermelha quase rota, com que costumo dormir de Inverno, um disco que nunca ouvi e outro, com que quase sempre adormeço.
Tenho um sinal no queixo que me irrita, a fotografia de um gato preto que morreu de velho e guardo na carteira ao lado do B.I.. Tenho saudades do gato, pena de mim e dores nos joelhos quando muda o tempo.
Tenho saudades da chuva quando é Verão, do sol quando faz frio e de que gostem de mim como eu gosto de ti.
Tenho um álbum de fotografias de amigos que vejo quase todos os dias e vontade de rir quando me revejo nelas. Sofro da doença de gostar e tenho medo.
Tenho dores de cabeça quando penso em ti e não te vejo e, tenho dores de cabeça quando estou contigo e tu não dizes que gostas de mim. Tenho uma torradeira que não funciona e uma coluna de som na casa de banho, para quando tomo longos banhos de imersão. Tenho muitos amigos que gostam de mim, outros tantos que nem por isso, e a dúvida de que alguém goste de mim como eu gosto de ti.
Tenho uma casa pequenina com uma janela grande na sala de onde se avista o Tejo, um quadro na parede pintado por mim, que nunca assinei e um galo de Barcelos em cima do baú onde guardo as mais gratas recordações. Tenho bons princípios e uma cama quase sempre vazia. Tenho sonhos eróticos de vez em quando e uma tablete de chocolate amargo na gaveta da mesa-de-cabeceira, para comer nos dias em que tenho insónias. Tenho um livro que nunca acabarei de ler e outro que já li 3 vezes. Tenho uma paixão por azul, embora também goste muito de verde. Tenho um carro que anda, uns lábios carnudos e uma mãe encantadora que raramente vejo e me telefona sempre nas horas em que estou carente de afecto.
Tenho tanta coisa a que não ligo nem pedi, e o que mais quero não tenho!
Tenho pena de mim por ser quem sou, por um dia ter permitido ao meu coraçãozinho grande, encher-se de alegria por te ver. Tenho saudades de ser quem fui e desejo de te ter sempre aqui ao pé de mim. Mas sei que não pode ser! Porque tu... Tu tens mais que fazer do que gostar de mim como eu gosto de ti.
Gosto tanto de ti!


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